Lenda da Bica do Bugre

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Ao começar nossos estudos para a realização do documentário sobre a Bica do Bugre, nós encontramos muitos textos falando da lenda por trás da história da bica. A que mais achamos legal, com mais informações e mais detalhes foi a que transcrevemos abaixo. Ela está sem autoria, apenas com a bibliografia. Se você souber o autor, por favor, nos avise.

A Lenda da Bica do Bugre

“A lenda da Bica do Bugre pertence ao povo de Taubaté. A sua origem não tem data marcada, não tem compromisso com o tempo, mas, com toda a certeza, antecede a chegada do homem branco em nossa região.

Seguindo o processo de criação de todas as lendas da literatura mundial possui componentes específicos da terra taubateana e elementos que a aproximam da mitologia universal. A sua importância interna está no fato de ser uma lenda genuinamente indígena, isto é, produzida pelos índios guaianases e, na questão temporal, antecede a chegada do homem branco em Taubaté.

O Cacique Guaiatá encontrou, durante estação de caça, dois veios d’água nas proximidades da Lagoa Grande. A água da bica trazia o brilho do Sol, o frescor da luz da luz e as vibrações das frutas silvestres.

O Cacique Guaiatá convocou o pajé Vatuanê e solicitou-lhe a organização de um ritual, para a purificação da água da bica. Peri, o líder dos jovens guerreiros, ensaiou as cantigas dos deuses das matas. Mara, uma espécie de guardiã da tribo, cuidou dos enfeites e oferendas à deusa do rio e das águas profundas.

A Lua cheia tomou conta do céu e clareou a terra. Os índios iniciaram o ritual. Houve danças, cantos, conversas com os mortes que, segundo a crença indígena, moram em casa feitas de luz dentro das estrelas.

O pajé, depois de um silêncio prolongado, ditou a mensagem ditada por Cantiporé, o espírito protetor dos guaianases. “O viajante que beber da Bica do Bugre retornará à Taba-etê, mais cedo ou mais tarde. As luas passarão, as noites desfilarão diante dos deus, mas um dia, de chuva ou sol, o viajante retornará. A Bica do Bugre será, para sempre, o lugar do eterno retorno”.

Na solidão da Mantiqueira, nos movimentos que balançam a alma, no segredo que isola as coisas do mundo, Peri amava Mara.

Mara, dona de um mistério impenetrável, adorava o índio Peri. A sua vida, porém, pertencia à tribo. Ela cuidava das crianças, dos velhos e comunicava-se com as divindades.

Nas estações das amoreiras, quando as árvores se tingem de frutos maduros e as mulheres preparam o vinho da vida; um índio tamoio chamado Devanturê, entrou nas terras da taba-etê. Devanturê contou ao índio Peri que, numa noite de tempestade, se perdera na Serra do Mar. A sua região chamava-se Iperoig. Ele caminhara, ao léu, por várias luas, até chegar à aldeia dos guaianases.

Pero comovido com a situação daquele que, como acontece em várias lendas, vem de fora para dentro; aquele se instala, invade; deu-lhe hospedagem por quatro dias. Devanturê observou os detalhes da existência dos guaianases; filtrou os movimentos e as forças de Mara; comeu frutas silvestres; bebeu das águas dos rio, bebeu da Bica do Bugre e, antes da chegada das garças brancas, partiu.

O tempo garimpou o sertão. O joão-de-barro erguei sua morada. A estação da colheita, da pesca, da caça, chegou através do perfume das copas das árvores.

Os guaianases, num sistema de mutirão, entraram no coração das matas. Mara permaneceu na aldeia, cuidando das mulheres, dos velhos e crianças. O mundo indígena, então, dividiu-se entre os que partiram e os que ficaram. As grandes epopeias, dos mais variados momentos estéticos, seguiram essa estrutura narrativa. A saudade, na opinião dos estudiosos, nasceu, exatamente, nas ausências e permanências.

Na lua minguante, segundo as ordens do Cacique Guaiatá, os guaianases retornaram. As nuvens estavam muito baixas. As flores dos campos estavam acanhadas, encolhidas. O coração de Peri prenunciou o cheiro da tragédia. A aldeia estava deserta, saqueada, violada. Os tamoios raptaram, na ausência da tribo, as mulheres, as crianças e, principalmente, a índia Mara. Peri sentiu que o seu mundo desabara.

Nesse ponto da narrativa, a lenda da Bica do Bugre intertextualiza-se com o rapto das Sabinas, o sequestro da rainha de Tebas, a fuga de Martin e Iracema, de José de Alencar.

Peri andou nas profundezas da Serra do Mar. Procurou Mara nos grotões mais escondidos pela mataria, cipoal, árvores colossais, trilhas de animais bravios.

No seu retorno, os membros mais antigos da aldeia, condenavam o índio Peri a morrer de fome e sede, amarrado ao tronco de uma Perobeira gigante. O tempo galopou todos os sofrimentos. Os cabelos de Peri banharam-se em neve; as presilhas que prendiam o pobre índio, no tronco da árvore, apodreceram-se na noite da festa dos Vaga-lumes. O seu tempo de Prometeu acorrentado terminara.

No fundo da sua memória, funcionando como imagem registrada, estava a cena do tamoio Devanturê, bebendo na Bica do Bugre. Peri, filho da cultura dos seus antepassados, permaneceu de guarda ao lado da Bica. Os seus pensamentos giravam em torno da profecia: quem bebê, retorna…

O sol partiu e não se despediu de ninguém. A noite chegou distribuindo escuridão. Peri ouviu os passos quebrando as pequenas plantas secas. O tamoio Devanturê aproximava-se da Bica do Bugre. Peri, agitando as forças dos sofrimentos reprimidos, pulou sobre o inimigo. O corpo do tamoio sentiu o peso da força bruta e, no ímpeto da luta, comunicou a Peri a morte da índia Mara. Ela morrera de saudade, exatamente como Iracema de Alencar. No embate dos corpos, no ardor da luta, arrastou o índio Devanturê ribanceira abaixo. A morte, esperando pelo momento exato, levou a alma do tamoio para o pântano dos condenados.

Peri ainda viveu por alguns anos e, na madrugada colorida pelos girassóis, o espírito de Mara veio buscá-lo, no momento exato que o bandeirante Jacques Félix entrava no coração de Taba-etê.
Que o nosso povo, os nossos estudantes, mulheres e crianças, intelectuais, artistas, lavradores, operários, empresários, empreendedores, bebam da água da Bica do Bugre, para permanecer em Taubaté.”

Bibliografia:
Coleção – Estudos Sociais de Lendas dos Estudo Brasileiros
Publicação – USP e UEB
Paulo Prado – Histórias de São Paulo
Raimundo Menezes – Histórias das Províncias de São Paulo


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